Matéria elaborada para a Revista Gambiart (revista feita por alunos da Universidade Cruzeiro do Sul)
Uma análise atual sobre ficção científica e seu papel na cultura pop
Um homem liga a televisão para assistir ao noticiário noturno. Uma série de reportagens é apresentada.
Organizações internacionais estão debatendo os limites éticos na inteligência artificial de robôs. Dois governos poderosos estão ameaçando a segurança do planeta com bombas de destruição em massa. O Nobel de Física vai para cientistas que conseguiram ouvir ondas gravitacionais vindas do universo. A Conferência Geral sobre Pesos e Medidas vai redefinir a medida oficial de um quilo. Um repórter apresenta a tuatara, um réptil que é considerado um fóssil vivo da época dos dinossauros.
Essas parecem notícias futurísticas que caberiam em alguma obra fictícia, mas são todas verdadeiras e recentes. Para a sociedade no geral, as semelhanças são interessantes. Para os fãs de ficção científica, elas são inevitáveis e provavelmente assustadoras.
Ficção científica é um gênero cujos conteúdos se baseiam em conceitos científicos e no impacto das tecnologias, no futuro ou no presente. Isso o diferencia do gênero fantasia, que, por sua vez, usa enredos sobrenaturais e sem explicações lógicas. As histórias quase sempre incluem viagens no tempo, vida extraterrestre, aventuras pelo espaço na velocidade da luz e mais.
Ainda assim, a definição exata do que é ficção científica é mutável, assim como seu impacto na cultura pop. Como já dizia Lester del Rey, um dos grandes escritores desse estilo do século XX, “é difícil dar nome ao que não tem limites”.
Bárbara Prince, produtora editorial da editora Aleph, fala sobre isso: "O gênero tem diversas definições e infinitas discussões sobre a sua classificação. Eu gosto de uma definição de Isaac Asimov [um dos maiores nomes na área], segundo a qual a ficção científica mostra as reações da sociedade às mudanças na ciência e na tecnologia”. A Aleph é a principal editora de livros de ficção científica no Brasil, e até ela varia bastante no tipo de publicação. Bárbara continua, lembrando de mais um grande nome entre os publicados por ela: “Também acho fundamental lembrar o que disse Ursula K. Le Guin: que a ficção científica não trata do futuro, e sim do presente, da nossa realidade. São livros com alguma mensagem sobre o mundo em que já vivemos”.
Ao longo dos anos, a indústria foi descobrindo as brechas pelas quais era possível faturar (e muito) com o gênero. Ainda que possa existir um certo aproveitamento, a maioria das pessoas não vê isso como um problema. “As ficções científicas contemporâneas ainda apresentam reflexões super pertinentes e interessantes (como ‘A Chegada’ e ‘Black Mirror’), e é ótimo que cada vez mais gente tenha acesso a isso”, Bárbara comenta. “Mesmo os filmes feitos para grandes massas e produzidos pelos gigantes da indústria cinematográfica, como é o caso de Star Wars, têm seu valor artístico e conseguem causar grande impacto na vida das pessoas”.
É a mesma opinião da jornalista Thais Aux, fundadora do Doctor Who Brasil. “Existe, hoje em dia, uma ascensão dos gêneros de fantasia e ficção científica, principalmente com os filmes de super-heróis e nova saga de Star Wars, mas isso não faz com que a essência se perca. Os estúdios estão em sintonia com o que os fãs querem, e todo mundo sai ganhando”, afirmou.
Se Star Wars é o maior exemplo de sucesso da ficção científica no cinema, Doctor Who é o maior exemplo de série televisiva, ao lado de Star Trek. Para quem não conhece, um resumo: Doctor é o nome dado para um alien viajante do tempo e do espaço, que a cada episódio deve salvar o universo de alguma maneira mirabolante, geralmente acompanhado de uma humana.
Parece muito para você? Para milhões de fãs ao redor do mundo, Doctor Who não só está na medida certa, como também manteve seu público por mais de 50 anos. São quase 40 temporadas no total, um filme, séries spin-offs e dezenas de conteúdo do universo expandido, além de milhares de produtos relacionados que, por si só, já movimentam milhões de dólares. Com tudo isso, a série se tornou um marco do gênero. Thais reconhece o impacto: “Ao longo de seus 53 anos, DW tenha inspirado muitos criadores - diretores, roteiristas, quadrinistas e afins - a criar suas próprias obras de ficção científica e fantasia, seja de forma direta e indireta”. Um desses foi Rick and Morty, desenho de 2013 que traz muitos elementos de Doctor Who e De Volta para o Futuro, mas de uma forma bem menos politicamente correta.
O que todas essas obras têm em comum é o tipo de questionamento que elas trazem. “Toda obra de ficção acaba levantando questões morais. A série Star Trek também é uma obra de ficção científica que levanta questões morais o tempo todo. O gênero é só o pano de fundo para trazer à tona essas questões”, esclarece Thais.
A jornalista e mestre em Science Fiction Studies pela Universidade de Liverpool (Inglaterra), Cláudia Fusco, acredita também que a busca pela ficção científica tem a ver com a busca humana por conhecimento. “A partir do momento que a gente sabe mais, que a gente compreende mais o universo e o mundo em que vivemos, já estamos um passo adiante”. E essa é a grande ‘pegada’. Ela continua: “Há um conceito de estranhamento cognitivo. A ideia é que, quando você entra numa história de ficção científica que é boa mesmo, você vai encontrar elementos ali que te perturbam, te confundem. Só que, ao contrário da fantasia ou do horror, essa cognitiva vai te fazer buscar entender, porque ali tem uma lógica, uma mecânica por trás”.
Seja em Doctor Who, Star Trek, Star Wars, Rick and Morty ou clássicos de Isamov e de Ursula K. Le Guin, sempre há um motivo por trás das histórias e personagens um tanto ‘extrapolados’. Delas surgem discussões sobre fé versus ciência, estados totalitários, preconceitos contra minorias, avanços tecnológicos, inteligência artificial, e a própria essência do que é ser humano.
Nem todos os questionamentos sociais são percebidos facilmente
Com o avanço da ficção científica, parte do público passou a consumir o gênero sem pensar muito no que há por trás dele. Isso é verdade especialmente na sétima arte. “Eu acredito que acontece muito de os filmes de ficção científica apelarem para muita ação e efeitos visuais impressionantes, o que é normal e não necessariamente ruim. Mas muitas vezes a reflexão trazida pelos livros do gênero não é transposta para os cinemas”, aponta Bárbara. “Por isso, mesmo que os espectadores gostem de filmes como Eu, robô e Eu sou a lenda, eles muitas vezes não ficam sabendo das ideias originais por trás daquelas histórias, da real motivação dos personagens e dos questionamentos trazidos pelos autores”.
Por vezes, essa falta de percepção faz com que os fãs nem mesmo percebam que estão reproduzindo as problemáticas que as obras criticam. Por exemplo, o machismo sempre foi um problema latente nesse gênero, bem como em tudo que tem a ver com a cultura geek e nerd.
A jornalista e editora do canal literário Who’s Geek, Gabi Colicigno, usa a princesa Leia, do Star Wars, como exemplo. “A Leia é interessante justamente por ser uma princesa. Se você pegar as princesas até então, elas eram apáticas. Então você tem a Leia, que é uma personagem muito marcante”. Só que, ainda assim, a presença feminina continuou sendo um problema recorrente na franquia. “Nós temos mulheres escrevendo bastante no universo expandido, mas precisa de mais mulheres lá dentro [da história]”, Gabi afirma, lembrando que nos filmes oficiais os únicos papéis de destaque de mulheres são de Jyn Erso (em “Rogue One”), Rey (que surgiu em “O Despertar da Força”) e a própria Leia.
Bárbara se mostra atenta a como as pessoas estão encarando as mudanças, ainda que elas sejam lentas. “A comunidade nerd ainda está longe de realmente respeitar a diversidade e dar voz às minorias. Muitas pessoas consomem histórias que tratam justamente de diversidade e aceitação, mas não absorvem as mensagens e continuam sendo preconceituosas”. Ainda assim, ela é otimista, reconhecendo que personagens femininas boas estão sendo cada vez mais exploradas em filmes, séries, livros e games do gênero.
Thais também vê com otimismo essa questão. Recentemente, foi anunciado que a atriz Jodie Whittaker vai se tornar a protagonista de Doctor Who e, apesar de muitos fãs se mostrarem incomodados, ela percebeu que a maioria está levando a mudança positivamente. “Os fãs da série viram a transformação como algo natural, afinal é normal o Doutor mudar de corpo. É verdade que houveram reações negativas, mas isso também aconteceu com Peter Capaldi na época que ele foi anunciado, pois ele era ‘muito velho’ (e na época de Peter Davison, pois ele era ‘muito jovem’)”. Preconceitos com idade, aliás, também são exploradas em algumas obras da área.
A ficção científica não é sempre bonita
Arthur C. Clarke, autor que deu origem ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, afirmou que “a ficção científica trata de coisas possíveis, mas que não gostaríamos que acontecessem, enquanto a fantasia trata de coisas impossíveis, mas que gostaríamos que acontecessem”. Ainda que não seja uma limitação exata, é uma boa forma de ver este gênero.
A ficção científica não existe unicamente para maravilhar, ainda que esta seja, muitas vezes, uma de suas facetas. Ela existe também para assombrar, representar, provocar e, principalmente, alertar. O escritor e editor Thomas Schulze, em um artigo para o site Play Replay, percebeu algo brutal na produção de ficção científica mundial: ela surge quando mais precisamos dela.
Muitas das maiores obras do gênero foram criadas no século passado, entre guerras mundiais e ‘imaginárias’ (como no caso da Guerra Fria). Com a chegada dos anos 2000, essa produção diminui significativamente, até mais ou menos 2010. Então, a nova década veio com uma série de novos problemas.
“A problemática que vivemos nos anos 2010 não é tão clara, óbvia ou preocupante quanto uma bomba nuclear, mas nem por isso deixa de ser perigosa. Da desigualdade social ao terrorismo, da vigilância do Estado onipresente às pessoas colocando suas vidas em aparelhos celulares, da manipulação de massas ao preconceito, passando por cruzadas descerebradas em busca de justiça social, há muito material inquietante por aí digno de inspirar grandes filmes e séries”, Schulze afirma. O pior é que, atualmente, a ameaça de bombas nucleares voltou a existir, por parte (novamente) dos Estados Unidos e da Coréia do Norte.
É claro que esses filmes, livros e afins não são o suficiente para impedir que os transtornos mundiais sigam em frente, mas podem servir de aviso. Não há nada melhor do que o retrato de um futuro espantoso para nos fazer prestar atenção no presente.
Quer mergulhar no universo da ficção científica?
Se você tem interesse, mas nunca soube por onde começar, confira uma lista de alguns dos maiores clássicos deste gênero. Vale lembrar que, quanto mais antigo, menos impressionantes são os efeitos especiais, mas isso não significa que não valha a pena conhecer. Ah, e procure saber mais sobre os livros que inspiraram essas obras, também!
FILMES:
O Dia Em Que a Terra Parou (1951)
Planeta dos Macacos (franquia; 1968 – 2017)
2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968)
Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1978)
Alien (franquia; 1979 – 2017)
Blade Runner: O Caçador de Androides (1982)
De Volta para o Futuro (franquia; 1985 – 1990)
Jurassic Park (franquia; 1993 – 2018)
Independence Day (1996)
Matrix (1999)
Donnie Darko (2001)
V de Vingança (2005)
Ela (2013)
Interestelar (2014)
A Chegada (2016)
SÉRIES:
Doctor Who (1963 – 1984; 1985 – 1989; 2005 – presente)
Star Trek (1966 – presente)
Arquivo X (1993 – 2002; 2016 – presente)
Smallville (2001 – 2011)
Lost (2004 – 2010)
Battlestar Galactica (2004 – 2009)
Heroes (2006 – 2010)
Black Mirror (2011 – presente)
Orphan Black (2013 – 2017)
Rick and Morty (2013 – presente)
The 100 (2014 – presente)
Sense8 (2015 – presente)
Westworld (2016 – presente)
The Handmaid’s Tale (2017 – presente)

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