Representatividade no Jornalismo Brasileiro

(Trabalho em desenvolvimento)

Matéria da Editoria de Diversidade na revista Código feita por alunos da Universidade Cruzeiro do Sul.


A igualdade é uma utopia inegável

O Jornalismo é mais do que uma profissão: é uma engrenagem fundamental da nossa sociedade. Seria lógico, então, que todos os componentes da sociedade estivessem representados por dentro e por fora da produção jornalística. Atualmente, mais da metade dos jornalistas brasileiros são mulheres; entretanto, elas ainda recebem menos e estão em poucos cargos de poder. Negros, então, representam apenas 5% dos profissionais da imprensa, e não há dados divulgados sobre a população LGBT no Jornalismo.

Não é uma grande surpresa se considerarmos que o Brasil é campeão em desigualdade: ele está em 7º lugar no ranking da OMS em taxa de homicídios de mulheres no período entre 2006 e 2010, e é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo todo, segundo a Transgender Europe. Quando se fala de raça, de acordo com o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade (IVJ), entre 2010 e 2015, a morte de jovens negros aumentou em 21,3% em comparação a 2007.

Você já parou para pensar em quem está produzindo notícia no Brasil? Na hora de falar sobre os problemas enfrentados pelas pessoas LGBT, ou pelos negros, é uma exceção quando um membro de um desses grupos realmente representa a si mesmo. São eles, porém, que devem ser ouvidos.


Metamorfose Invisível 

Aos poucos, o Brasil se depara com mais discussões acerca de temas como identidade de gênero e pessoas trans. Na maioria das vezes, isso vem por meio de tragédias anunciadas, como foi o caso da travesti Dandara, assassinada em fevereiro deste ano, sua morte divulgada na internet como um crime de ódio. Outras vezes, porém, a visibilidade pode ser positiva, ou pelo menos com boas intenções; “A Força do Querer”, novela da Globo de autoria de Gloria Perez, anda trabalhando com um personagem que se descobrirá homem trans (ou seja, alguém que foi designado como menina ao nascer, mas se identifica com o gênero masculino). 

Porém, há um certo perigo em tratar de assuntos sociais sem consultar os protagonistas dos mesmos. Isso se evidencia mais ainda quando percebemos a falta de profissionais trans no Jornalismo brasileiro. 

“Existe um déficit porque essa população, muitas vezes, nem consegue terminar os estudos devido à transfobia”, conta Luiz Fernando Prado Uchoa, autor de “Simplesmente Homem: relatos sobre a experiência cotidiana de homens trans” e também homem trans. Sobre a visibilidade que o assunto vem ganhando, ele é categórico: “Se há interesse na pauta trans por parte de qualquer veículo de comunicação, é essencial haver pessoas trans auxiliando na construção, desenvolvimento e edição de conteúdo (...) Saliento que as pessoas cis mais devem ouvir do que falar a respeito”.

Existem, sim, profissionais trans que poderiam cobrir esse déficit, se tivessem mais oportunidades. Por mais que a dura realidade da maior parte dessa população seja as ruas, há cada vez mais delxs em universidades. Barbara Aires, por exemplo, é uma mulher trans formada em Jornalismo, que não só trabalhou por dois anos no programa “Amor e Sexo”, mas também ajudou na construção do quadro “Quem Sou Eu?”, do Fantástico, segundo Uchoa. Infelizmente, as estatísticas ainda apontam que isso é uma exceção.

Assim como todos que se identificam como LGBTs – ou seja, lésbicas, gays, bissexuais e qualquer coisa fora da hétero e da cisnormatividade -, pessoas trans precisam ter suas pautas reconhecidas e debatidas de forma pública. Essas pautas, entretanto, mudam entre si, mesmo dentro da comunidade LGBT: enquanto para algumas militâncias, o casamento igualitário é uma prioridade, para outras é preciso pensar mais em como diminuir as agressões, as mortes e a pouca empregabilidade. Isso não significa que uma parte da sigla deixe de ter importância, mas é uma prova de como a mídia tem muito o que aprender. Não há uma fórmula, mas há sempre mais maneiras de educar a população, e para isso é preciso dar espaço para quem realmente tem o que ensinar. 


O Empoderamento Feminino

Mulheres no Jornalismo pode parecer um assunto ultrapassado, se olharmos para nossas televisões e portais de notícia sem muito aprofundamento; afinal, elas já ocupam mais da metade dos cargos jornalísticos. De acordo com a pesquisa “Perfil do Jornalista”, realizada pelo Programa de pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina em junção com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), em 2012 elas eram 64% dos jornalistas brasileiros. Porém, mesmo assim, elas ainda ganhavam menos do que os homens.

Ex-diretora da revista Glamour, Mônica Salgado, comentou sobre esse paradoxo. “Quando a gente fala em igualdade de oportunidades, a gente fala das mesmas oportunidades para ascender de cargo, de nível salarial... então não basta apenas ter um emprego, não devemos nos contentar só com isso”.

Como se não bastasse a diferença salarial, mulheres jornalistas ainda tem um transtorno extra que deve ser enfrentado todos os dias: o assédio no trabalho. Como é um trabalho que exige muitas habilidades sociais, carisma e simpatia, elas acabam ficando ainda mais vulneráveis aos avanços de assediadores tanto dentro dos veículos de comunicação quanto por parte das fontes. Um caso famoso foi o de Giulia Pereira, do portal IG, que denunciou o cantor Biel depois de sofrer assédio verbal e ameaças. Isso resultou em uma breve campanha contra o assédio na internet (como costuma acontecer quando uma situação se torna pública), mas o resultado imediato na “vida real” foi a demissão de Giulia e da editora responsável pela matéria. O que esse tipo de reação prova sobre a profissão jornalística no Brasil, se não o despreparo para lidar com o machismo intrincado em todos os setores? Mulheres não estão à disposição para serem assediadas, nem nessa e nem em qualquer outra profissão.

Ainda de acordo com a pesquisa “Perfil do Jornalista”, o número de mulheres chega a aumentar ainda mais em áreas fora da mídia. Ou seja, trabalhos que não precisam lidar diretamente com veículos de comunicação, mas que utilizam o conhecimento jornalístico de outra maneira, acaba concentrando grande parte do demográfico feminino. Isso pode ter relação com empregabilidade ou com o receio do assédio e do machismo na atuação como repórter, mas é certo que não é apenas uma coincidência. 

E não é apenas de forma agressiva que o machismo se faz presente. Mônica, mesmo tendo trabalhado em ambientes majoritariamente femininos, já passou por situações desconfortáveis. “Eu já fui chamada de histérica. Se eu fosse homem, provavelmente minha atitude teria sido encarada como ênfase”.

Por falar em ambientes femininos, há ainda a divisão da imprensa do que é considerado de um gênero ou outro. Moda, por exemplo, costuma ser um assunto levado por mulheres, com poucos homens na redação; esportes, por outro lado, continuam sendo debatidos sob perspectivas masculinas. Isso nem sempre é negativo. “É muito mais fácil, quando se é mulher, de praticar empatia, de entender o que elas buscam e pretendem”, Mônica afirma. O problema é quando isso é restritivo, ou ainda preconceituoso – moda seria uma editoria menos importante do que esportes? Mônica acredita que essa visão está mudando. “Estamos vivendo um mundo de constante transformação, defendendo a inclusão e a diversidade”.



Supremacia Branca

Se os dados sobre mulheres no Jornalismo já foram algo a se pensar, as estatísticas sobre os negros são apenas tenebrosas. Até 2012, 72% dos jornalistas eram brancos – isso em um país com mais da metade da população negra. De lá para cá, não mudou muita coisa. De que forma o telespectador e leitor negro ou pardo está se relacionando com essa imprensa branca? Será que isso afeta a construção da identidade do negro no Brasil?

Afeta, e muito, segundo Valéria Almeida, repórter da Globo. “É muito diferente quando você é branco, estudou nas melhores escolas, e está falando para um negro na periferia”, diz ela. “Aí entra o lugar de fala, que é você realmente dar espaço para o negro falar, e não simplesmente transformar essas pessoas em pauta, sempre como um estudo”. Essa relação da imprensa com a população negra não só interfere na autoestima das próprias pessoas negras, como também cria um distanciamento entre as diferentes realidades de raça no Brasil e passa por cima do quão sério o racismo realmente é no país.

Não podemos esquecer do quão recente é o fim da escravidão no Brasil. A famosa Lei Áurea pode ter sido assinada em 1888 (por pressão, diga-se de passagem, e não benevolência), mas a inserção do negro na sociedade ainda caminha a passos lentos. Afinal, eles vieram para cá arrancados de toda sua história e sua cultura, e depois foram deixados para se virar em comunidades próprias. Não só isso, mas os responsáveis por tudo ainda fizeram questão de transformar a história negra em sinônimo de coisa “ruim”. “Você desqualifica tudo que é do negro – a religião, a cultura, o cabelo – tudo vira demoníaco, feio... transformaram toda a nossa imagem em algo que não é bom”, Valéria explica. Isso se transformou em índices negativos para toda a população negra. “Não fazemos parte dos grupos que recebem os melhores salários, ou que ocupam as universidades públicas. E quando a gente consegue terminar um ensino superior, muitos ainda ficam sem acesso ao mercado de trabalho, por não fazer o ‘perfil’ da empresa”.

Para quem é mulher e negra, a coisa fica ainda mais complicada. Une-se estereótipos, machismos e racismos e o caminho da negra no mercado de trabalho acaba com mais pedras do que o de qualquer um. As agressões vão desde o assédio duplicado (já que a negra é vista de forma ainda mais sexualizada do que a branca) até a negação da própria identidade negra, em especial o cabelo. Nos últimos anos, surgiram diversos movimentos entre meninas e mulheres negras em relação às suas madeixas, para que elas fossem deixadas ao natural. A grande dificuldade em fazer isso, além de enfrentar um senso de beleza que sempre foi predominantemente branco, é o despreparo da própria sociedade. Empresas negam cargos à mulheres com cabelos crespos, humoristas ainda fazem piadas com o fato e o dia a dia é carregado de ofensas e olhares. 

Como jornalistas, devemos mexer a caixinha do que é padronizado, devemos incomodar quem está acomodado – e isso pode incluir nós mesmos. Como Valéria disse: “Você não precisa ser negro, ser mulher, ser gay para falar sobre o que você acha importante, para ter a consciência do que é certo e errado, sugerir as pautas e tudo mais. Agora, não basta só isso. Não basta a gente falar do outro e não incluir. Se não, nós nunca teremos uma sociedade igualitária, ou a proporcionalidade certa no Jornalismo e em todas as outras áreas”.



Páginas feitas por mim por meio do uso de Photoshop:












Infográfico:




0 comentários: